A pós-modernidade e o fracasso dos intelectuais.
Essa questão vai direto à espinha dorsal. Não pode ser respondida levianamente.
A meu ver, o fracasso dos intelectuais é mais uma consequência nefasta do fracasso do próprio projeto moderno. Colocar a razão no lugar de Deus, ao invés de dissipar as trevas, acabou por criar novos monstros em substituição aos antigos. Leviatãs talvez ainda mais malignos e insidiosos que as abominações de outrora.
No cerne do iluminismo cintila o racionalismo materialista, que destilado através dos séculos acabou por redundar neste hedonismo materialista que domina as mentes e os corações da humanidade contemporânea. Diga-se de passagem, este é um dos fatores responsáveis pelo declínio da ética e pela disseminação da criminalidade e corrupção que estamos presenciando.
Abdicar do espírito nunca é uma sábia opção. O espírito é o que resiste ao tempo, é o que faz o gênio humano perdurar, seja através da arte, da cultura, da filosofia, das relações humanas e até mesmo através das ciências. Abdicar do espírito nos engendra cada vez mais no materialismo.
Todo o esforço filosófico iluminista se dá no sentido de consolidar uma nova sociedade, a sociedade burguesa. Ora, mas não é o burguês aquele que vive mediante o lucro e para o lucro? Não estaria aí a raiz do sentido existencial predominante no mundo hoje? A noção de que devemos viver para acumular e acumular para podermos gozar? A noção de que precisamos “ter para ser”? De que esse é o sentido da vida? Acredito que sim.
Nietzsche nos alertou quanto a isso. Modernidade é decadènce! Entre muitas outras razões, é “decadènce” por que em uma sociedade que tem o seu sentido em “comprar e vender” não pode existir espaço para a nobreza. Não se diz aí da nobreza enquanto título social, mas como qualidade do espírito.
Ele nos alertou também que “Deus está morto!”, que nós humanos o matamos e que agora nós teríamos que lidar com as consequências de sermos responsáveis pelo nosso próprio destino! O momento era crucial, por um lado a mais ampla possibilidade de liberdade, isto é, a possibilidade de darmos sentido para nossa própria existência, autonomia, por outro lado, o peso de termos que aceitar essa colossal responsabilidade.
Ele ainda nos aponta uma saída: Devemos escolher o espírito, a nobreza, a vida, a virtude, devemos buscar a auto-superação continua, devemos escolher o Übermensch!
Mas não… Optamos pelo materialismo burguês, e nos tornamos todos sibaritas. Vejamos só, o que pode ocorrer se adicionamos uma filosofia materialista à uma práxis mercadológica e uma teleologia da aquisição tudo isso em um animal-homem que já tem em si o gene da ganância e da violência? Com certeza o que teremos não será o fim da escuridão, a liberdade, a igualdade e a fraternidade. O que teremos sim será Hiroshima e Nagasaki, Auschwitz-Birkenau, Khmer Vermelho, Vietnã, Pinochet, Verdun, Stalingrado, Líbia, Iraque, Afeganistão, Etiópia, Somália… A lista é virtualmente infinita.
Percebendo o retumbante fracasso que aguardava a humanidade no final do caminho apontado pela “avant-garde” iluminista, um novo corpo de intelectuais dissidentes começa a teorizar sobre novos horizontes possíveis para a raça humana, são esses os que nós conhecemos hoje como “esquerdistas”, ou seja, Marx, Engels, Proudhon e cia. Estes anteviram que o mercantilismo redundante da revolução iluminista faria senão aumentar as desigualdades antes à realizar suas promessas. Entretanto, em suas propostas de soluções, continuaram a perder o espírito de vista, apenas que agora o materialismo era “histórico”, estes, ingenuamente, acreditaram que podiam mudar a humanidade sem mudar o homem, que poderiam através da força e da política, da “ditadura do proletariado”, estabelecer novos valores e ideais. Ora, que bela inversão de causa e consequência perpetraram estes sujeitos!
Pois bem, com Deus fora do caminho, colocado foi no pedestal a racionalidade humana coroada com o materialismo iluminista. Veio o final do século XIX e o início do século XX e o fracasso deste projeto já estava mais que evidente e aquela parcela da humanidade que precisava de esperança para viver rapidamente vai se arregimentando em torno desta nova forma de pensar: os comunismos.
Praticamente toda a nova intelectualidade se lança em suas fileiras. Mas são valores e ideais o que podem fazer brotar uma nova sociedade e não ao contrário, a não ser pela força, e foi o que foi feito, pela força. Mas toda a força se esgota, e esta se esgotou muito rapidamente: 9 de Novembro de 1989 e o muro cai. E cai com ele também uma humanidade combalida.
O homem, que em alguns poucos séculos perdera sua fé em Deus e logo em seguida a sua fé na razão, agora perdia também a sua fé em si mesmo! E como podem ser mesquinhos aqueles desesperados desprovidos de toda fé e esperança!? Claro, muitos estertores de alegria e júbilo rugiram nesse dia, não sem razão, mas era apenas o júbilo de prisioneiros que simplesmente trocavam seus grilhões por outros mais sutis!
E os intelectuais? Suas duas tentativas mais ambiciosas redundaram em grandes desilusões, mas o tempo agora já não pode mais voltar e, como alertara Nietzsche, temos agora que lidar com as consequências desses fracassos. Cavamos um fosso demasiado fundo nesse processo, e agora? Como poderemos nos libertar?
A pós modernidade faz ecoar os últimos suspiros de Jean-Jacques Rousseau, que ao final de sua vida indagava: A nova civilização já é irrefreável, estaria a humanidade condenada a perdição?
De dentro de nosso fosso profundo fica difícil enxergar a luz!
08/09/2011 às 17:34
sublime.
Nossa idade moderna é guiada por um sentimento duradouro e unânime de que economia e moralidade são compatíveis, pode ocorrer, para alguém em que há uma reformulação dos valores sensíveis à igualdade, fraternidade e liberdade, estando este à parte ou sendo beneficiado pelas instalações econômicas…
A moralidade se restringe a valores não absolutos e trata de tudo aquilo que é mais caracteristicamente pessoal e emocional, e uma vez que a economia coloca valores em tudo, versa em considerar o indivíduo como uma unidade de produção e consumo dentro de um amplo sistema impessoal.
Nesse sentido, penso que essa razão falha em imputar valores para o espirito, alma, o transcender. Afinal, de uma forma ou de outra, tais estimações diferenciam o homem do próprio homem, e por fim, não há como obter a tão aclamada exatidão e retidão no atual projeto burguês. Não há como obter igualdade social num capricho entre o atual modus operandi da economia e a moralidade, os que a sustentam e a defendem procuram justificar a funcionalidade da economia, afinal, essa está trabalhando positivamente a favor da elite. Com isso é eximido de uma vez por todas os controles políticos externos e subjetivos como o da população que é afetada pelo mercado. Uma delicadíssima ditadura econômica!
Num outro momento, se as forças que regem o sistema econômico fossem coordenadas pelos desejos das pessoas que o fazem parte, estas não hesitariam em escolher valores socialmente aceitáveis ante os economicamente viáveis.
08/09/2011 às 17:36
“socialmente aceitáveis”